Praia Clube, por Marina Di Lullo

Proposta do conto primeiro bimestre 2018: experiência de delírio misturado à realidade, de tal forma que o leitor não saiba o que é loucura e o que não é. A personagem deve ser muito diferente da autora.

 

Os seus olhos azuis me deixam louco. E a altura também. Pensei que fosse gay, a barba azul, os colares, a massagem que faz no lavatório, após a tintura das clientes. Como acha que estou aqui há tanto tempo? Pensei que fosse pelo talento. Dou o que elas querem: atenção, carinho, ombro amigo. Depois: corte na medida, cor perfeita, spray importado, revistas.

Verônica se via prensada contra o armário da salinha escura de produtos de beleza. A cabeça dele alcançava seu peito, a segurava com a mão direita na cintura, e na outra a tintura pronta da Madame Andrade e Albuquerque ou AA, como chamavam.

Vê, Vevê, não faça mais isso, disse a mãe. A diretora a olhava com pena. Já tinha saído de outra escolinha, onde a chamavam de pé de pato e poste.

Ele subiu a mão para o peito de Verônica e o golpe da infância foi automático. Enfiou o dedo no olho direito do coiffeur, que caiu com a tintura espalhando-se pela camisa branca de linho e soltou um riso nervoso e amedrontado. Lembrou de pegar a bolsa. As paredes de vidro do lado esquerdo ora refletiam a Marginal, ora a luz ambiente, fosca e cega; na frente do salão, a escada rolante parecia um abismo; do lado direito, o corredor de comidas de shopping Center: neons, letreiros vermelhos, ternos sozinhos e hambúrgueres se derretiam na chapa usada sem cessar; tudo se misturava numa pasta.

Oi, como você chama? Verônica. Já trabalhou em salão? Sim, em dois. Por que saiu? O primeiro faliu, o segundo a dona era boa gente, vivia cheio, mas teve que mudar de cidade e passou o ponto para uma amiga que não entendia nada de salão. Uma pena, ficava numa galeria antiga do Baixo Augusta e as drags adoravam se reunir ali antes da balada. No shopping não falta serviço e os cabeleireiros têm clientes fiéis. O mais antigo é o Charles ou Charly, faz cabelos para peças de teatro e é o nosso expositor, todo ano dá show na Hair Brasil. Você vai substituir a assistente dele, que vai ter bebê. Vai ser fácil, seja silenciosa, sem conversa em tom alto, elas têm horror a vulgaridades. Está bem, quando começo? Hoje mesmo, Nena vai te dar um avental.

Estava na primeira classe. Pagamento em dia, perfumes no ar e aquele silêncio de saguão de hotel famoso. Até que Charles avançou nela.

Sua filha tem TOD – Transtorno desafiador de oposição, combinado com TDAH -Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. Verônica tinha oito anos e não gravou os nomes, só lembra da boca da diretora abrindo e fechando, cheia de tês. E da apreensão da mãe: O que isto quer dizer?

Ela precisa de terapia, talvez medicamentos. A escola não pode resolver tudo sozinha, é uma briga atrás da outra, além de não completar as tarefas.

A mãe chegava à noite do emprego de secretária numa empresa de ônibus do ABC e a filha ficava com a avó, que via programas de culinária e a empanturrava de balas. Conseguiu uma tarde livre na empresa para levar Verônica ao psiquiatra e não voltou mais nele, sabia da amiga da Contabilidade que piorou da hiperatividade com o mesmo remédio receitado. Ficou com a consciência pesada, a escola continuava a chamá-la para reuniões, e marcou outro psiquiatra. Ele disse que ela não tinha TDAH, só TOD, e que seu QI era muito alto, não via desafios na escola, por isso se opunha à autoridade dos professores, e receitou ansiolíticos. Na escola, houve a promessa de que as provas para Verônica teriam maior grau de dificuldade. A mãe comprou o remédio, mas jogou no lixo.

Verônica não entendia por que, justo no final de semana do pai, a mãe a levava para São Vicente, na casa de uma amiga. E grudava um bilhete na porta, com fita crepe: Fomos à praia. A mãe dormia até tarde no sábado e perdiam a praia. Ia para o Praia Clube dançar e deixava Verônica com a filha de quinze anos da amiga.

Menina, por que você não é como as outras crianças? Senta e vê o desenho. Para de andar pra lá e pra cá.

Verônica tinha raiva. Do pai, da professora, da menina de quinze anos, da mãe não admitia, mas tinha. Foi ao banheiro e esvaziou o shampoo, para arrumar o que fazer – o cheiro era bom – também era bom aquela pentelha não ter shampoo pra lavar a cabeleira vasta e enrolada. A mãe a acordou cedo, para irem à farmácia e não disse uma palavra, só na volta: Coloque onde estava. Admirava as atitudes da mãe: não era entendida pela professora, trocava de escola; acabou o shampoo, comprava outro. Nada de gritos, nada de broncas. Só não sabia que a pressão da mãe aumentava silenciosamente.

Verônica fazia um furinho no meio da borracha mole e branca, bem devagar, para chegar ao outro lado. Ouviu a professora falar do Rio Nilo, queria achar um clipe no estojo para continuar, a ponta do lápis quebrava na metade do caminho. Venha me ajudar. Como? Só tinha escutado o início da aula. Desenhe na lousa a linha do tempo, eu dito pra você. Aquela sensação estranha e desafiadora, de fazer parte de alguma coisa.

Estou com falta de ar, meu coração está acelerado, vou morrer. O médico do Pronto Socorro checou a pressão, os batimentos cardíacos. A pressão está boa, vou pedir exames. Não consigo sair daqui. Você tem mãe, namorado, marido? Não, ninguém. Meu pai mora em São Paulo. Vou te receitar um calmante, parece Síndrome do Pânico.

A porta fechada às 8hs e todos os funcionários esperando a madame? É um absurdo, irresponsável! Te dei a chave da imobiliária, na maior confiança e você faz o que, ãh?! Perde o ônibus? O uber? Ta louca?

“O professor me falou alguma coisa que eu não entendi porque não era ãh.

Voltei pra casa meio ãh, e o guarda me pegou com um ãh, e falou que eu ia ãh.

Peraí seu guarda, eu posso explicar

Então explica!

É que…ãh…”

Verônica adorava Gabriel O Pensador.

Depois de trabalhar em mais dois salões bem caídos, se mudou para São Vicente, próxima da lembrança da mãe e do Praia Clube. Achou vaga de secretária numa imobiliária, a dona loira oxigenada, unhas de gel pintadas de preto, pele esturricada de sol, brincos, colares e anéis enormes, tão reluzentes que não poderiam ser ouro – pelo menos não seria assediada.

Você pode fazer curso e se tornar corretora, vai crescer aqui. Esquece salão de beleza, vai se tornar profissional, ter comissões. É uma beleza quando vendemos um grande, tem até champanhe pra comemorar.

Segundo dia de trabalho: Esses são os números dos médicos. Preciso de consulta pra ontem, dermato, gineco, cardiologista. Já ligou para o Álvaro? Estava interessado num apartamento na Ponta da Praia. Avisa a Dina que ela vai buscar as crianças na escola, tenho um coquetel de lançamento de prédio, fala pro Paulo que chego depois da meia noite em casa.

A mesa lotada de papéis, ouvia até a parte do Álvaro, esquecia o resto. Ia buscar café para a chefe e perguntava tudo de novo. Verônica, você é bonita, olhos claros, chama a atenção, será que tem cérebro? Vou ter que repetir tudo?

Seu foco era ser corretora, ganhar dinheiro, não podia desistir, não podia ser tão fraca.

A porta fechada às 8hs e todos os funcionários te esperando pra entrar? De novo?

Verônica foi preparar o café, mas teve que se sentar na primeira cadeira que viu pela frente. Não conseguia respirar, o pulmão fechado, o ar parava na garganta, fazia um nó e o coração disparava. Eu vou morrer. Um corretor se aproximou. Eu vou morrer. Calma, te levo no Pronto Socorro, deve ser mal-estar, você se alimentou? Não vou conseguir. Vem, dá o braço, o Valmir ajuda, te levamos.

A chefe deu duas semanas de licença, o calmante só a fazia dormir, parou de tomar no terceiro dia. No quarto escuro, deitada, quieta, a respiração melhorava. Embaixo da soleira, o folheto “Cozinhas Core – designer contemporâneo – abertura da loja”. Ficava no térreo do prédio. Ensaiou a saída mil vezes, parava antes do capacho. Na recepção, cafeteira prateada e vermelha, sofá de couro macio, caramelo e o aviso “Precisa-se vendedora”. Esperou a vez.

Exercício da aula de 07/03/2018: Anáfora

Proposta: as alunas escreveram uma frase cada com o mesmo início (Não foi à toa que eu não consegui que ele). O resultado deu um texto anafórico. Foram escolhidos aqueles que pareceram ser da mesma história.

 

Não foi à toa que eu não consegui que ele aprovasse minhas palavras, as marcações lotaram a página e eu, desgostosa, reli: no por do sol, a brisa leve me acalmou. Vai ver ele estava certo.

Não foi à toa que eu não consegui que ele respondesse à minha pergunta. Sabia que, mesmo sem querer ouvir a resposta, ele nunca teria coragem de me dizer a verdade.

Não foi à toa que eu não consegui que ele olhasse para mim. Se tivesse olhado, não teria tido coragem. Aliás, nunca teve. Coragem. Foi melhor assim.

Não foi à toa que eu não consegui que ele confessasse a traição. As consequências seriam danosas para nós. Ele me amava, concluí.

Não foi à toa que eu não consegui que ele saísse da cama. Tinha deitado inteiro, mas acordou pela metade.

 

Autoras (pela ordem dos parágrafos): Mariana Caló, Vânia Gomes, Hanita Bergmann,  Angela Pontual, Renata Valias.

O ponto preto da maçã, por Renata Valias

Exercício semanal: escolher quatro livros, aleatoriamente, e tirar do primeiro um personagem (Pollyana Moça, Eleanor Porter); do segundo uma época (Os Miseráveis, Victor Hugo); do terceiro um lugar (Contos Leblonianos, João Ubaldo Ribeiro) e do quarto uma ação (O Crime do Padre Amaro, Eça de Queiroz). Escrever um conto usando esses quatro elementos.

26 de abril de 1832.

O que seria dos dias, em terras tão remotas, não fosse este diário? Cada nota é pausa valiosa para organizar os pensamentos, para entender os mistérios de Nosso Senhor e Sua presença oculta em cada existência. Começo a ver o que Ele buscava ao colocar-me, esta manhã, diante de tamanha angústia. A menina chorava olhando para o céu e gritava coisas que eu não conseguia entender. As ondas já tinham molhado suas saias até a altura dos joelhos e pesavam os passos sem direção. Ora corria até as colunas do cais, infestadas por conchas desabitadas, ora retornava arrastando a areia, contemplando com olhos cegos o morro imenso, inesperado, que se partia em dois e, lá no fundo, punha fim à praia. O lugar estava deserto e temi pela segurança da menina; apesar de desgrenhada, era bonita, coberta de sardas e inocência, cabelos afogueados roçando a cintura. Ainda que recatada, a cambraia colava em seu corpo contra o vento e marcava os seios recém-nascidos. Um pescador que chegasse ali, depois de dias no mar, não poderia imaginar deleite maior. Caminhei para perto, meu coração cristão pedia que a ajudasse, e, ainda escondido pela vegetação, consegui entender os últimos gritos da menina: papai, papaaaai, não está mais funcionando! Papaaaai, as baleias, as baleias, não consigo jogar, papaaaaaaaai! Não pude discernir entre desespero e loucura, pedi a Deus pelo primeiro e avancei em sua direção. Ei, senhorita! Foi preciso gritar três vezes até que o som da minha voz vencesse o das ondas. Virou para trás sem susto, calada, esperando qualquer socorro que eu logo notei não poderia oferecer. Você está perdida? Muito. Quer ajuda para voltar para casa? Eu sei voltar. Então foi do seu pai que você se perdeu? É possível nos perdermos da lembrança de alguém? Ora, não seria isso o próprio esquecimento? Eu me perdi de mim. Senhorita, me diga como posso ajudá-la? Não pode. O jogo acabou, perdi. E estou também perdendo meu pai. Tenho medo de ter coragem. Ela recomeçou a chorar e correu gritando algo sobre o fim. Tropeçou na barra do vestido, caiu na areia e ali ficou, tremendo. Investi novamente, sentei ao seu lado e pedi que me dissesse seu endereço, que a levaria para casa. O senhor não entende, me sinto perdida em qualquer lugar. Meus pensamentos são maus, sussurram violências que não reconheço. Não existe nada de bom em matar baleias, existe? Eu fui até o Sr. Le Blond, implorei que parasse com a caça, talvez fosse isso que meu pai aprovasse, mas é um velho ruim, disse que continuará a matar todas as baleias que encontrar. Acho que odeio o Sr. Le Blond e eu tenho medo de odiar. É um veneno, meu pai disse, mata a beleza das coisas. Mata. É verdade, é verdade, essa praia linda é tão feia agora. Mata baleias. Nada, não consigo encontrar nada de bom, poderia inventar, mas as trapaças aborreceriam meu pai, eu odeio o Sr. Le Blond! (Era tanto desvario que não sei se sou fiel o suficiente ao transcrever). Ei, se acalme, você poderia me dizer que jogo é esse, talvez eu conheça e possa ajudá-la. Ninguém conhece o Jogo do Contente no Rio de Janeiro. Então por que não me ensina? A primeira coisa que vi ao aportar neste lugar foram dezenas de baleias enfileiradas na praia, com o ventre aberto e um cheiro de morte que não sai de mim. Isso foi no início do outono e desde então, os pensamentos foram saindo da ordem. Vê?! Não dá para jogar odiando. Como se joga? Não adianta. Como se joga? Precisa encontrar algo de bom em tudo o que acontece. É um jogo difícil. Até agora não tinha sido. Papai dizia que os acontecimentos ruins davam trabalho, mas era o que deixava o jogo mais divertido. Mas as pobres baleias… aquele homem horroroso… não consigo ver nada de bom em nada, é como uma cegueira. Seu olhar cintilava confuso, a voz variava de tom, cobria o rosto com as mãos para depois cruzá-las sobre os ombros, na inquietação da loucura. Me diga o que há de bom em matar baleias, por favor! Mata-se pelo óleo, você sabe, para termos luz à noite, isso é bom. Para quem? Vejo mais coisas boas na noite escura. As coisas deixam de ser como são só porque você as vê de outra forma? Meu pai está indo embora de mim; quando ele for, serei capaz do mal, meus pensamentos estão perdendo os freios. Tenho medo de ter coragem de matar o Sr. Le Bond. Com uma faca. Ou a mim. Então, o Senhor me assoprou algo no ouvido. Espere, achei uma coisa boa, senhorita! Os olhos sardentos se escancararam para mim.

 

Desica, por Marina Di Lullo

EXERCÍCIO DE AULA 8/11: DESCREVER UMA CIDADE COMO SE FOSSE ALGUÉM CONHECIDO

Sinuosa, a neblina impõe respeito. Diria que para chegar apenas ao seu portão, atravessamos cidades fabris, estrada de asfalto liso e fábrica de automóveis atulhados no pátio.

Cadeia montanhosa, último reduto da Mata Atlântica, seu início é descida. Os ouvidos não escutam, dá um enjôo a curva maior. As nuvens se afastam e sinto que tudo volta para o lugar: o silêncio da montanha, o posto da polícia.

Chega-se à vista infinita, de cima dela vê-se o mar. Ali embaixo, encontrarei pescadores que vendem o peixe mais fresco, fazê-lo frito, com pimenta, é o modo mais rápido. Um dia basta para conhecê-la. A areia é macia, o mar é limpo, os prédios são poucos, tem um curvo, de azulejos cor-de-rosa e verde água. Posso sentir o calor nos pés perto do meio-dia. As mulheres adoram deitar nela. O mar é azul acinzentado, as atrai. Melhor ir embora logo, o portão fecha às 18 horas.

Exercício de aula 8/11/2017, por Renata Valias

DESCREVER UMA CIDADE COMO UMA MULHER QUE O AUTOR TENHA CONHECIDO

A rua principal desemboca numa praça mágica. A praça é coberta por lírios brancos que florem quando acontece algo bom. Os postes de luz são talhados em madeira escura, onde se vê formas divertidas: máquinas de escrever, bailarinas, reis antigos e até um índio de calça jeans. A luminosidade dos postes é curiosa, ela anda atrás da gente como fachos de luz que fazem curvas e clareiam coisas que não se vê a olho nu. Das árvores, colhe-se letras; às vezes, palavras inteiras. Colhe-se para brincar e não para comer. Brincamos de inventar histórias e dizer coisas bonitas. À entrada da praça, pilhas de livros colorem o gramado e formam um nome bonito: NOEMI.

Exercício de aula 8/11/17, por Mariana Caló

DESCREVER UMA CIDADE COMO ALGUÉM QUE O AUTOR TENHA CONHECIDO

Bruna anoitece límpida, um vento gelado bate em seus arranha-céus envidraçados que refletem nuvens arroxeadas; os trabalhadores saem dos escritórios com passos decididos, partem pontualmente das plataformas em filas organizadas não por faixas pintadas no chão, mas por lasers verdes que se adaptam, dependendo de quem chegou. O cheiro é estridente, uma limpeza que irritaria qualquer visitante desavisado e se você caminhar com um copo de café na mão, te olharão assustados, com desprezo. O silêncio predomina: o trem não faz nenhum ruído; apenas pássaros insistentes cantam no topo das árvores simétricas.

À Mesa, por Roberta Paixão

EXERCÍCIO SEMANAL: O PERSONAGEM ESTÁ MORRENDO E PENSA EM NECESSIDADES PROSAICAS DA VIDA

                                                                                   Their´s not to make reply

                                                                                   Their´s not reason why

                                                                                  Their´s but to do and die

                                                                                            “The Charge of the light Brigade”,

                                                                                             Alfred Lord Tennyson

Espio pela frincha do olho esquerdo vultos verde, rosa e azul em uma polca psicodélica. Ninguém fala, só o barulho de uma cigarra da floresta que parece ter arranhado a agulha na vitrola e empacado no agudo eterno. Ai, que dor no coração foi esta?!

Ela voltou, batimentos estabilizando.

You take my life, but I´ll take yours too; You´ll fire your musket, but I´ll run you through; So when you´re waiting for the next attack; You´d better stand, there´s no turning back.

Gastei 22.500 reais, 17 mil só para o cirurgião. Mas ele era bom. Foi indicado pela Mari, irmã da Nandinha, que ficou com uma barriga de Gisele… Não… Da Pia Wurtzbach. Nunca deixaria qualquer um encostar em mim. Minha mãe me disse: Só você vê estes pneus, minha filha. Mãe, eu e o reflexo no espelho; já é muita gente. Ah, não, sou nova demais para sacolejar pelanca por aí. O resultado ficou ok, apesar da cicatriz de um ossinho ao outro da bacia. Pelo menos não deu aqueles morrinhos, tipo terreno lunar, ficou um varal. Fiz uma tatuagem por cima. Não sou boba, não, menina. Me valorizei. Borracha queimada? Carne queimada! Ô, gente, o que vocês estão fazendo com a minha barriga? Este povo não escuta.

Som mais alto, por favor. Doutor, saturação caindo para 78, aumentando oxigênio. Fim da incisão, afastador.

Ei, você de verde! Odeio quando não me respondem, é o fim da educação. Sua mãe não compareceu, não, imbecil? Um cidadão que saí falava. Aquele gostava de falar. Eu pedi licença, levantando o dedo como criança em sala de aula: Vou ao toalete. Só quando me mexi, ele respondeu com um vai de mãos. Olhei para trás, e não é que o diabo continuava a retórica homilíaca em voz baixa. Peguei uma reta até o banheiro, chamei o Uber, me esgueirei até a porta da saída. Só tive notícia dele uma vez: Geraldo? Ah, coitado, não abre mais a boca, está em uma casa de repouso desde junho, retiro do silêncio. Não se aguentou, só pode ter sido isto. Valha-te, Deus! Ui, tire esta luz da minha cara, pode cegar?!

Foco cirúrgico mais para direita, sobre o tórax, assim. Gaze com clorexidina, iodo. Vamos aumentar a incisão.

Saiam todos de cima de mim, sofro de claustrofobia de gente. Já fiquei histérica no elevador lotado do trabalho. Estávamos no quinto andar, éramos 12 em uma população limite de 13 pessoas ou 452 quilos no cubículo que se dizia inteligente. Eu subiria ainda 9 lances até o escritório da presidente da empresa e, sabe-se lá, quantos altos, baixos, cheirosos, fedorentos, feios, bonitos, mulher, homem e tudo mais entrariam. Gritei tão alto que a senhora de aparelho nos ouvidos voltou a escutar e a secretária de peitões, dita burra, ficou surda por duas semanas. Foi o que ela disse para ganhar a licença. Burra sou eu: trabalho como uma roleta de metrô na hora de pico, na estação da Luz, sem férias há cinco anos. Sem filhos, sem homem, sem quase tudo, com contas, contas, contas, contas, contas que perdi a conta.

Pinça, bisturi, tesoura, gaze, mais gaze. Parâmetros? Doutor, mantém 60 de batimentos e 85 de saturação. Precisamos terminar logo para estabilizar a paciente.

Ai que frio. Um cobertor, por favor? Estão vendo meus peitos. O esquerdo pesa uns 30% a mais do que o outro. Foi assim com a minha mãe, avó, bisa e, desconfio, a tata, por que o apelido dela era Maria Pra Cima Pra Baixo. Uma humilhação fazer isto com uma mulher. As pernas estão abertas? Pelo amor de Deus, alguém salve a minha dignidade.

Podem fechar. Não há mais o quê fazer. Vou falar com a família.

Doutor, volte aqui, seu filho de uma mãe sem filhos. Conserte esta bagunça. Eu estou viva, viva, viva, viva, vi.

And as I lay forgotten and alone

Without a tear I draw my parting groan

Hora da evolução para óbito?

19:33.

obs: E não é que a cigarra continua a tocar na eternidade.

 

Os olhos do Rio Negro, por Renata Valias

CONTO DO TERCEIRO BIMESTRE DE 2017: ESCREVER SOBRE UM ANIMAL, PREVIAMENTE ESCOLHIDO PELA AUTORA, E CONTER UMA EPIFANIA

Numa noite de praças cheias, contava voltas em torno do parque, com passadas aceleradas e maquinais, até que vi a lua. Ela estava tão bonita e eu tão triste, que não pude dar mais um passo. Sentei na grama e olhei para o céu. Do horizonte ao domo, a lua subiu alinhada entre dois pinheiros, eu junto. Me distraí com a beleza da noite até que fui surpreendida por um pensamento: eu sou natureza. Foi uma mudança drástica de perspectiva; até então, a natureza era ela e agora somos nós, sou tão natureza quanto uma árvore, uma arara ou um rio e qualquer dia, quando deixar de ser, viro alimento para o ciclo da vida. Isso nada tem que ver com a dor do abandono que me come por dentro, há alguns meses. Marco não me ama mais, foi embora amando outra e o que não é matéria, em mim, já se decompôs.

Talvez o episódio no parque tenha sido um cutucão piedoso apontando o caminho para o alívio. Decidi buscar a fonte primeira, a velha sábia gigante que a todos nutre e oxigena; acabo de chegar à Amazônia. Estou instalada à beira do Rio Negro, numa comunidade ribeirinha que acolhe até quatro forasteiros por vez, mas sou a única. Os caboclos são receptivos e a líder, Rosália, fala sem parar, engolindo sílabas a todo momento; mostra-me o galinheiro, a horta, as plantas medicinais, esmiuçando suas funções; detalha o processo de moagem e torra da mandioca, olhos arregalados ao falar dos perigos da versão brava da raiz; explica as três horas diárias de energia graças a um velho gerador a diesel e apresenta as aves cativas da comunidade: uma arara, dois papagaios e um gavião quase domesticado. Eu me esforço para manter a atenção, mas busco meus olhos a toda hora, eles não saem do rio. O que sussurram aquelas águas?

– A moça teve sorte, amanhã é dia de festejo, dia de São João. Vai ter músico da cidade tocando por aqui, uma raridade.

Com jeito, interrompo o falatório e peço licença para molhar os pés, refrescar o corpo da viagem sacolejante e do calor nuca abaixo. O Rio Negro me convida em voz baixa, hipnótico qual olhos de cobra. É fascinante, mas perturba; medo de entrar inteira, sento num resto de árvore deitado na beira d’água e mergulho a metade das pernas, até quase a dobra dos joelhos. A água alivia pouco, é morna, parada, escuríssima. Olhar o rio e a moldura verde que ele não conseguiu afogar de todo é ver o que ninguém mais viu, não daquele jeito. O Rio Negro, que nasce colombiano, com o nome de Guainia, e morre brasileiro ao acasalar com o Solimões, parindo o Amazonas, titã das águas doces, corre quase parado, e qualquer desavisado poderia confundi-lo com um lago imenso. A floresta está submersa, mas viva. Assim como eu.

Um volume arredondado surge e muito rápido desaparece na superfície, deixando um repetir de círculos concêntricos e um barulho de sopro molhado, desses que a gente faz quando fica muito tempo debaixo d’água, brincando na piscina com os primos. Desperto da letargia e me ponho de pé para ver melhor, mas não há nada. Minutos depois, muito mais à direita, e longe, acontece de novo, e eu olho em volta para ver se mais alguém viu. Um velho que desfia grandes folhas secas, a poucos metros de mim, tem uma expressão de quem acha graça, e diz, sem levantar a vista: é boto, moça.

Nas noites comuns, cada um come em sua casa, à luz de lampião, e os forasteiros fazem rodízio nas mesas das famílias. A primeira noite é sempre na casa da Rosália, um retângulo feito de ripas de madeira, dividido em quatro cômodos, suspenso em palafitas. Tudo muito organizado e limpo, mas quente, de um calor pesado, como todo lugar nestas latitudes. Vicente, seu marido, engenheiro amador e construtor por ocasião, foi inovador ao cercar a casa com passarelas que acabaram fazendo as vezes de varandas.

– Que peixe é esse?

– Surubim.

– Muito bom, nossa, gostoso mesmo! Nunca tinha comido.

– Então aproveita, porque tem sido uma dificuldade encontrar surubim nas redes. Parece que os botos pegaram gosto por eles e, de um dia pro outro, andam comendo tudo, ainda filhotes.

– Eu vi um boto hoje à tarde, quando fui me molhar no rio, dei muita sorte! Digo orgulhosa, mas os filhos riem de mim.

– A moça vai cansar de ver boto por aqui, não precisa de sorte, não. Basta olhar pra água mais à tardinha, quando o movimento das embarcações diminui. Vai ver um ou dois, todas as vezes.

– E dá pra ver de perto, assim, se estiver num barco? Colocar a mão neles?

– Dá não moça, boto que chega perto de gente é boto enredado, infeliz e perto da morte.

Quem conversa comigo é Vicente. Rosália parece outra, calada, ocupada em servir os pratos, depois recolhê-los e lavá-los. Ofereço ajuda, ela lava, eu enxugo, e, enquanto isso, o marido continua a prosa:

– Mas amanhã, durante o festejo, é capaz da moça ver boto de perto e até colocar a mão, né Rosália?

– Vicente! Que falta de graça! Quer parar de conversa besta perto da hóspede!

Olho pra um e pra outro, metade constrangida, metade curiosa, e espero a explicação que não vem. O marido deixa o cômodo contrariado, a mulher pragueja para si e eu sigo enxugando a louça, quieta. Não sei se por necessidade de desabafo ou para romper o silêncio desagradável, Rosália volta a ser Rosália e fala num fôlego só, com voz chorosa:

– Ele vai me atormentar com isso pro resto da vida, ele não me acredita e não me perdoa. Casou comigo porque quis, sabia de tudo e casou do mesmo jeito. Casou porque quis, eu não pedi e nem ligava de ficar sozinha. Ele teima em me atormentar com esse assunto, vai e volta nele toda vez que pode pra me pôr nervosa ou, vai ver, pensa que me tira alguma coisa, mas eu juro pra você que o Bento é filho de boto.

Continuo muda, enquanto ela me fita em busca de concordância.

– Desculpa, Rosália, eu não entendi o que você disse.

– Disse que o Bento, meu mais velho, é filho de boto.

Minha cara denuncia qualquer coisa e ela exaspera:

– Não é modo de dizer, menina, pois se não foi isso mesmo que me aconteceu? Nos festejos de São João, o boto que quer vira homem e vem se engraçar com moça-virgem, enfeitiça a pobre, leva pra água e devolve pra terra com filho na barriga. Foi assim que me nasceu o Bento, mas não há o que faça o Vicente acreditar, não passa mês sem que ele venha me atormentar querendo saber com quem andei me engraçando antes d’ele me conhecer.

Não vi um traço dissimulado, nem vestígio de dúvida no rosto de Rosália. O que se pode dizer diante do absurdo feito certeza por quem crê? Agradeço pelo jantar, me despeço e vou embora. Antes, paro uns minutos na passarela que virou varanda, esperando a brisa da noite, mas não há. Olho para o rio que se confunde com todo resto, tudo é breu, da cor que o imaginário adora preencher com assombrações, mas o que verdadeiramente me assombra é que, também eu acreditei em coisas impossíveis.

A cabana para os visitantes, de madeira e com teto de sapé, tem dois quartos idênticos e um banheiro compartilhado. Camas e mesinhas de cabeceira, cabideiro, cortinas de algodão e um aparador sob o espelho, onde Rosália pontua sua hospitalidade com um toque de delicadeza: flores ou folhagens, de acordo com o que encontra no dia, acomodadas num vaso de barro. É fácil gostar dali, mas a mornidão atormenta o sono e a primeira noite é mal dormida. Sonhos se transformam em pesadelos que se misturam com repetidos momentos de sonolência acordada, uma grande confusão a ser solucionada amanhã cedo, quando estiver lúcida. Sonho com Marco, nadamos juntos não sei bem onde, braçadas largas, eu sorrio muito e mergulho pra me refrescar; então o tempo muda, tudo fica preto e branco, Marco tenta me afogar. Enquanto me debato sob a água, sufocando, sinto um volume invisível me elevar acima do nível do rio e me colocar dentro de uma canoa, olho em volta com medo e vejo dois olhos negros fixos nos meus, é um velho boto rosa, parado na água. Seus olhos sabem tantas coisas que, não tivesse eu acordado, teria compreendido o mundo. Desperto ofegante, camisola e cabelos ensopados.

A sensação de estranhamento pelo lugar novo, distante da vida corriqueira, é comum para mim. Não me reconheço e preciso conversar comigo para entender o que estou sentindo, para determinar se gosto ou não do lugar. Toda a força da Amazônia não vence este meu defeito, mas escolho gostar dali. Hoje, avancei um pouco mais no rio, permiti que a água me alcançasse a cintura; mas, não ver os pés e imaginar toda espécie de vida rondando minhas pernas, foi o que bastou para eu recuar. Que escuridão é essa, que se faz transparência na palma da mão?

Dia de festejo é dia de trabalho e isso não me exclui. Ajudo Rosália e as vizinhas nos preparativos com a comida – tacacá, madrinchã, tapioca, munguzá, bolo de buriti. Os homens cuidam da limpeza do terreno, das mesas e cadeiras, e as crianças trepam nas árvores para prender bandeirolas coloridas. A chegada dos músicos é celebrada antes mesmo que desçam da Kombi, sempre pode acontecer um imprevisto que os impeça de vir. Escolho me divertir. Experimento todos os sabores, danço com estranhos, brinco como as crianças, bebo além do ponto e vou molhar os pés, sob vozes maliciosas e sem dono: cuidado com o boto! O rio usa a camuflagem da noite, mas é denunciado pelo refletido da fogueira; está muito escuro, dentro e fora. Pobre boto, passa por cafajeste por conta de pecado alheio. Solto um riso debochado, ecoa amargura; quero reencontrar os olhos negros para, desta vez, ouvir o que têm a dizer.

Passado São João, passada a ressaca, passados três dias explorando a floresta que vai infinita além da vila, passa também o estranhamento e, aos poucos, acerto o passo ribeirinho. Logo cedo, passeio com Bento, que virou meu guia, apesar de manco; depois, converso com Rosália e suas vizinhas até a hora do almoço, elas falam sobre o estoque de açúcar, a perna inchada do Pereira, o capítulo da novela que perderam por falta de óleo para o gerador, a gravidez inesperada da Jurema, que passa dos quarenta, a aguardente que maturou, o doutor que deve vir de Manaus para cuidar dos dentes de toda a vila e o garoto da comunidade próxima que o jacaré atacou. Preocupações tão diferentes, prazeres tão mais simples.

As tardes são minhas e a quietude é surpreendente, a acidez das águas do Negro impede muitas formas de vida e, sem insetos, a cadeia alimentar não sobe e as aves vão cantar em outro lugar. Este lado da Amazônia é do silêncio. Não vi o boto ontem, nem no dia anterior, só aparece quando durmo, mesmo nos cochilos da sesta. Marco me afoga, o boto me salva. O senhor que desfiava as folhas secas noutro dia, está preparando o pequeno barco de lata, o único motorizado na comunidade.

– Vou buscar óleo pro gerador. A moça pode vir junto, se quiser.

Quero muito. Chegamos em Novo Airão em cinco minutos, mas o velho, Seu Tonho, jura que foram quarenta. No caminho, uma composição contínua de rio, floresta e céu. Negro, verde e azul. Novo Airão foi promovida a povoado, tem energia elétrica, telefone, venda, farmácia, correio, posto médico e de combustível, para onde caminhamos, mas é de uma feiura incurável. Não passo despercebida, as moças cochicham e os homens me apontam aos cutucões. Sensação estranha para uma pessoa tão comum. Enquanto Seu Tonho enche os galões, um garoto avisado estaciona na minha frente e dispara a tirar bugigangas de uma mochila enorme, espalhando tudo pelo chão:

– Boa tarde, moça bonita! Quer levar lembrança do Amazonas? É tudo feito aqui, tem pulseira de trança de palha, colar de semente de jarina, anel de casca de coco, tem também essas cumbucas de cabaça, tem bicho da região talhado em madeira de árvore tombada, olha que beleza essa lontra aqui; tem também pena de arara, olho de boto, dente de piranha.

– Olho de quê?

– Olho de boto, moça. É amuleto, dá sorte no amor. Tanta sorte, tanta sorte que, se não tomar cuidado, tem perigo de conquistar até quem a gente não quer.

Ele estende a palma da mão para eu ver de perto pequenas esferas desformes, ressequidas, de um preto desbotado. O rosto mostra a repulsa e o garoto guarda logo a mercadoria, voltando aos colares e cumbucas. Levo um macaco miúdo, para finalizar o assunto. Não bastasse a fama injusta, ainda lhe arrancam os olhos?

Seu Tonho faz um desvio no caminho de volta e entra num igapó, essas grutas líquidas que se formam entre as árvores nos tempos de cheia. Desliga o motor e viro sobressaltada, incerta se dou conta de me defender do velho. Ele tira o fumo do bolso. Acende. Traga. Solta a fumaça esticando o pescoço em direção às copas e diz:

– Parei aqui pra ver se Deus cura essa sua tristeza. Não tenho pressa.

Abóbodas rendadas pelo emaranhado de folhas, assinadas pelo acaso, coroam múltiplas capelas que se duplicam ao infinito escuro do rio. Fachos teimosos de sol atravessam a densidade das copas e, feito vitrais, luzem o sagrado. O retorcido dos galhos cria formas: uma gaivota, um coração transpassado, tantas cruzes tortas. Lavo a tristeza num choro desmedido que se mistura à chuva que começa a cair, enviada por anjos tropicais. Água que sai, água que cai, água que circunda. Não sei quanto tempo dura, mas para que saber o tempo de todas as coisas? Pela primeira vez, o velho olha para mim, olhos negros onde eu entendo o mundo. Sorrio, ele sorri de volta. Desato em gargalhadas, ele também.

– Podemos ir, Seu Tonho. Obrigada.

A volta é numa lenteza calculada, compasso de contemplação. As nuvens voltaram a ser rio e o sol se despede sob o rastro de muitos tons, enquanto o planeta conclui mais uma órbita. O caos em ordem, por ora. Peço que pare o barco alguns metros antes da margem, sigo nadando dali. Mergulho inteira, a água me recompõe e já não caibo mais em metades.

 

 

Branca, por Marina Di Lullo

CONTO DO TERCEIRO BIMESTRE DE 2017: ESCREVER SOBRE UM ANIMAL, PREVIAMENTE ESCOLHIDO PELA AUTORA, E CONTER UMA EPIFANIA

O portão do terreiro era aberto logo cedo, Branca saía na frente, sem olhar para as outras. A cabecinha minúscula apontada pra frente, até chegar a algum lugar escolhido e ciscar, faminta. As demais, molengas e sonsas, ficavam próximas do terreiro e não a alcançavam. Ela era mais musculosa que as outras, parecia centenária e lembrava os antepassados, dinossauros.

Carlos, já disse que não quero as galinhas soltas, remexem a grama, fico irritada só de ver, parecem donas do jardim, me disseram que, onde elas reviram a terra, pra procurar minhocas, não nasce mais grama. E a Branca vem ciscar na frente da janela do escritório e eu não consigo me concentrar, tenho projeto de casa para entregar.

Laura Fernanda tinha uma rotina rígida para trabalhar em casa. Depois do café espartano, ovos estrelados, café sem açúcar e banana, tomava banho rápido e colocava o relógio de pulso vermelho, para controlar a entrada no escritório às 8 horas. A roupa era confortável, de algodão e microfibra, cores neutras, da marca preferida, em vez das formais camisas claras e calças pretas. Alguns hábitos não mudaram: a marca do lápis para desenhar, made in Germany, o banco alto de assento de couro, presente do pai assim que se formou, para alcançar a prancheta, o alinhamento da xícara do café com o copo de água e o silêncio – profundamente abalado pelo galo cacarejante e as galinhas, intrusas e faladeiras.

São galinhas caipiras, precisam procurar coisinhas por aí, repetia Carlos.

Moravam há pouco tempo na casa de campo, sair do caos seria perfeito, teriam horta e jardim. Carlos também quis ovos, tornar-se autossuficiente. A proximidade da Terceira Guerra Mundial, o preço da gasolina que só sobe. Leu que são dezenove bilhões no mundo, as galinhas.

Branca parecia ser a mais velha e punha ovos caipiras clássicos, beges. Também vieram o galo e outras três, entre elas a de penas cinzas, que punha ovos azuis.

Laura Fernanda desenhava o banheiro da casa. Foi no youtube pesquisar modelos de banheira e, ao ver Branca perto da janela, escreveu na busca a palavra galinha. Descobriu uma experiência mostrando que as galinhas sabem contar. Como é possível (perguntava-se). Aquela cabeça miúda. Eu aqui, fazendo cálculos, para caber uma banheira em um banheiro pequeno. E orçar vários modelos, limitada pelas exigências dos clientes recém-casados: não pode ser cara nem redonda, tem que caber dois, ter hidromassagem.

Carlos comprou as galinhas pelos ovos, mas não demorou em pensar nos franguinhos. Chamou o caseiro para procurar palha e capim seco, fazer os ninhos para chocarem e colocar água e comida. Sabia quando ficariam chocas: as plumas arrepiam, andam mais devagar e cacarejam mais lento e seguido, têm que botar uns ovos antes, que não podem ser recolhidos. As caipiras são as melhores, protegem tanto os ovos quanto as crias e são usadas até em granjas, como se fossem amas dos ovos das aves que não têm vocação para chocar. Teriam franguinhos logo, os pintinhos nascem em vinte e um dias. Na fazenda da família de Carlos, a regra era não estressar a galinha pra ela ficar choca e, para isso não acontecer, afastavam o galo dela.

Virava de um lado pro outro antes de dormir, queria contar dos franguinhos.

Fê, o que acha de criarmos franguinhos?

Não consigo comer, vou pensar nos pintinhos.

E os frangos que compramos no supermercado?

São frangos de criação, não vi crescerem. Desculpa, Carlos, não consigo. E já basta a galinha velha que me irrita todo dia. E continuou a falar da galinha.

Branca se aproximava cada vez mais da janela do escritório e Laura começou a planejar um jeito de se livrar dela. Tinha um bem fácil, empurrá-la até o portão e fazê-la se perder. Estava muito irritada, mas riu, ao pensar em cartazes espalhados pelas ruas próximas: PROCURA-SE GALINHA CAIPIRA ou GALINHA ABANDONADA PELA DONA.

Branca ficou choca e teve seis pintinhos e a Cinza, cinco. A Cinza era mãe desnaturada, não queria cuidar dos pintinhos. Branca os adotou, colocou todos embaixo das asas e a admiração de Carlos só crescia.

A mãe de Carlos viria de Goiás para ver o filho e a nora. Soube da criação e pediu para separar a mais velha, faria uma receita de galinha caipira recheada.

Traz só o doce de leite da fazenda, eu cuido do almoço, disse Carlos.

Adorava a comida da mãe, mas era impossível pensar em Branca dentro da panela, era a ama dos pintinhos.

Laura Fernanda acordou com calor nos pés, a ansiedade nela vinha nessa direção; dia perfeito para acabar com o barulho das aves. Projeto novo sobre a mesa e lápis preparado, foi buscar sorvete para o almoço com a sogra, dedos dos pés pra fora, refrescados por uma rasteira de couro mole da Rondini, fácil de colocar. Tinha pressa, não queria mudar de ideia e deixou os portões abertos. O cheiro do Kobe Beef suculento se espalhou pela rua, assim como as penas brancas e amarelas.

Exercício da aula 20/9, por Daniela Longo

CONSIGNIA: A PARTIR DE UMA PALAVRA, ESCREVER UM TEXTO COM RENOVAÇÃO LEXICAL

Urra cu a rua

Cura

Cara

Coro

Corre

Rua

Cura carne crua, cura o cu

Wal de mar  cu Dio Carvalho

Carvalho, não! Caralho.

Caralho, não pode, fode.

Cura carne crua se precisar queima, prende bate mate

Wal, deu mal caralho.

Não pode caralho cura corre

Cura o cu.

Wá de coro, wá de choro, wá pra rua

Come carne, come crua, come escondido porque não pode.

Urra porra, explode e segura o gozo

Cura o cu do cara em coro na rua e corre