Praia Clube, por Marina Di Lullo

Proposta do conto primeiro bimestre 2018: experiência de delírio misturado à realidade, de tal forma que o leitor não saiba o que é loucura e o que não é. A personagem deve ser muito diferente da autora.

 

Os seus olhos azuis me deixam louco. E a altura também. Pensei que fosse gay, a barba azul, os colares, a massagem que faz no lavatório, após a tintura das clientes. Como acha que estou aqui há tanto tempo? Pensei que fosse pelo talento. Dou o que elas querem: atenção, carinho, ombro amigo. Depois: corte na medida, cor perfeita, spray importado, revistas.

Verônica se via prensada contra o armário da salinha escura de produtos de beleza. A cabeça dele alcançava seu peito, a segurava com a mão direita na cintura, e na outra a tintura pronta da Madame Andrade e Albuquerque ou AA, como chamavam.

Vê, Vevê, não faça mais isso, disse a mãe. A diretora a olhava com pena. Já tinha saído de outra escolinha, onde a chamavam de pé de pato e poste.

Ele subiu a mão para o peito de Verônica e o golpe da infância foi automático. Enfiou o dedo no olho direito do coiffeur, que caiu com a tintura espalhando-se pela camisa branca de linho e soltou um riso nervoso e amedrontado. Lembrou de pegar a bolsa. As paredes de vidro do lado esquerdo ora refletiam a Marginal, ora a luz ambiente, fosca e cega; na frente do salão, a escada rolante parecia um abismo; do lado direito, o corredor de comidas de shopping Center: neons, letreiros vermelhos, ternos sozinhos e hambúrgueres se derretiam na chapa usada sem cessar; tudo se misturava numa pasta.

Oi, como você chama? Verônica. Já trabalhou em salão? Sim, em dois. Por que saiu? O primeiro faliu, o segundo a dona era boa gente, vivia cheio, mas teve que mudar de cidade e passou o ponto para uma amiga que não entendia nada de salão. Uma pena, ficava numa galeria antiga do Baixo Augusta e as drags adoravam se reunir ali antes da balada. No shopping não falta serviço e os cabeleireiros têm clientes fiéis. O mais antigo é o Charles ou Charly, faz cabelos para peças de teatro e é o nosso expositor, todo ano dá show na Hair Brasil. Você vai substituir a assistente dele, que vai ter bebê. Vai ser fácil, seja silenciosa, sem conversa em tom alto, elas têm horror a vulgaridades. Está bem, quando começo? Hoje mesmo, Nena vai te dar um avental.

Estava na primeira classe. Pagamento em dia, perfumes no ar e aquele silêncio de saguão de hotel famoso. Até que Charles avançou nela.

Sua filha tem TOD – Transtorno desafiador de oposição, combinado com TDAH -Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. Verônica tinha oito anos e não gravou os nomes, só lembra da boca da diretora abrindo e fechando, cheia de tês. E da apreensão da mãe: O que isto quer dizer?

Ela precisa de terapia, talvez medicamentos. A escola não pode resolver tudo sozinha, é uma briga atrás da outra, além de não completar as tarefas.

A mãe chegava à noite do emprego de secretária numa empresa de ônibus do ABC e a filha ficava com a avó, que via programas de culinária e a empanturrava de balas. Conseguiu uma tarde livre na empresa para levar Verônica ao psiquiatra e não voltou mais nele, sabia da amiga da Contabilidade que piorou da hiperatividade com o mesmo remédio receitado. Ficou com a consciência pesada, a escola continuava a chamá-la para reuniões, e marcou outro psiquiatra. Ele disse que ela não tinha TDAH, só TOD, e que seu QI era muito alto, não via desafios na escola, por isso se opunha à autoridade dos professores, e receitou ansiolíticos. Na escola, houve a promessa de que as provas para Verônica teriam maior grau de dificuldade. A mãe comprou o remédio, mas jogou no lixo.

Verônica não entendia por que, justo no final de semana do pai, a mãe a levava para São Vicente, na casa de uma amiga. E grudava um bilhete na porta, com fita crepe: Fomos à praia. A mãe dormia até tarde no sábado e perdiam a praia. Ia para o Praia Clube dançar e deixava Verônica com a filha de quinze anos da amiga.

Menina, por que você não é como as outras crianças? Senta e vê o desenho. Para de andar pra lá e pra cá.

Verônica tinha raiva. Do pai, da professora, da menina de quinze anos, da mãe não admitia, mas tinha. Foi ao banheiro e esvaziou o shampoo, para arrumar o que fazer – o cheiro era bom – também era bom aquela pentelha não ter shampoo pra lavar a cabeleira vasta e enrolada. A mãe a acordou cedo, para irem à farmácia e não disse uma palavra, só na volta: Coloque onde estava. Admirava as atitudes da mãe: não era entendida pela professora, trocava de escola; acabou o shampoo, comprava outro. Nada de gritos, nada de broncas. Só não sabia que a pressão da mãe aumentava silenciosamente.

Verônica fazia um furinho no meio da borracha mole e branca, bem devagar, para chegar ao outro lado. Ouviu a professora falar do Rio Nilo, queria achar um clipe no estojo para continuar, a ponta do lápis quebrava na metade do caminho. Venha me ajudar. Como? Só tinha escutado o início da aula. Desenhe na lousa a linha do tempo, eu dito pra você. Aquela sensação estranha e desafiadora, de fazer parte de alguma coisa.

Estou com falta de ar, meu coração está acelerado, vou morrer. O médico do Pronto Socorro checou a pressão, os batimentos cardíacos. A pressão está boa, vou pedir exames. Não consigo sair daqui. Você tem mãe, namorado, marido? Não, ninguém. Meu pai mora em São Paulo. Vou te receitar um calmante, parece Síndrome do Pânico.

A porta fechada às 8hs e todos os funcionários esperando a madame? É um absurdo, irresponsável! Te dei a chave da imobiliária, na maior confiança e você faz o que, ãh?! Perde o ônibus? O uber? Ta louca?

“O professor me falou alguma coisa que eu não entendi porque não era ãh.

Voltei pra casa meio ãh, e o guarda me pegou com um ãh, e falou que eu ia ãh.

Peraí seu guarda, eu posso explicar

Então explica!

É que…ãh…”

Verônica adorava Gabriel O Pensador.

Depois de trabalhar em mais dois salões bem caídos, se mudou para São Vicente, próxima da lembrança da mãe e do Praia Clube. Achou vaga de secretária numa imobiliária, a dona loira oxigenada, unhas de gel pintadas de preto, pele esturricada de sol, brincos, colares e anéis enormes, tão reluzentes que não poderiam ser ouro – pelo menos não seria assediada.

Você pode fazer curso e se tornar corretora, vai crescer aqui. Esquece salão de beleza, vai se tornar profissional, ter comissões. É uma beleza quando vendemos um grande, tem até champanhe pra comemorar.

Segundo dia de trabalho: Esses são os números dos médicos. Preciso de consulta pra ontem, dermato, gineco, cardiologista. Já ligou para o Álvaro? Estava interessado num apartamento na Ponta da Praia. Avisa a Dina que ela vai buscar as crianças na escola, tenho um coquetel de lançamento de prédio, fala pro Paulo que chego depois da meia noite em casa.

A mesa lotada de papéis, ouvia até a parte do Álvaro, esquecia o resto. Ia buscar café para a chefe e perguntava tudo de novo. Verônica, você é bonita, olhos claros, chama a atenção, será que tem cérebro? Vou ter que repetir tudo?

Seu foco era ser corretora, ganhar dinheiro, não podia desistir, não podia ser tão fraca.

A porta fechada às 8hs e todos os funcionários te esperando pra entrar? De novo?

Verônica foi preparar o café, mas teve que se sentar na primeira cadeira que viu pela frente. Não conseguia respirar, o pulmão fechado, o ar parava na garganta, fazia um nó e o coração disparava. Eu vou morrer. Um corretor se aproximou. Eu vou morrer. Calma, te levo no Pronto Socorro, deve ser mal-estar, você se alimentou? Não vou conseguir. Vem, dá o braço, o Valmir ajuda, te levamos.

A chefe deu duas semanas de licença, o calmante só a fazia dormir, parou de tomar no terceiro dia. No quarto escuro, deitada, quieta, a respiração melhorava. Embaixo da soleira, o folheto “Cozinhas Core – designer contemporâneo – abertura da loja”. Ficava no térreo do prédio. Ensaiou a saída mil vezes, parava antes do capacho. Na recepção, cafeteira prateada e vermelha, sofá de couro macio, caramelo e o aviso “Precisa-se vendedora”. Esperou a vez.

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